PSICOLOGIA – NEWSLETTER 04

Experiências Adversas na Infância e Psicopatologia na Idade Adulta

De acordo com alguns investigadores, as experiências adversas vividas na infância têm impacto nas trajectórias desenvolvimentais posteriores (Figueiredo e tal., 2002; Soares, 1996; Sroufe, 2005). Estas trajectórias (des)adaptativas tendem a traçar um percurso de continuidade ou de mudança relativamente às experiências vividas na infância (Cummings, Davies & Campbell, 2000).

Sternberg e colaboradores (2006) referem que quanto mais precoce for a exposição à adversidade, maior a probabilidade de ocorrência de consequências negativas e nefastas para o desenvolvimento da criança e do aparecimento de psicopatologia na vida adulta (cf. Rosenman & Rodgers, 2006). De acordo com alguns investigadores do grupo ACE (Adverse Childhood Experiences), este fenómeno pode ser explicado pelo facto de, nos primeiros anos de vida, o número de conexões neuronais serem muito densas e céleres, traduzindo-se no desenvolvimento dos sentidos, da linguagem e das funções cognitivas superiores. Desta forma, os maus-tratos e a negligência no período da infância podem impedir a criação de sinapses no seu tempo certo, reduzindo o potencial de desenvolvimento cerebral. Desta forma, podemos concluir que a adversidade na infância constitui um factor de risco para o desenvolvimento de psicopatologia na vida adulta. As experiências adversas na infância são diversas e vão desde aos vários tipos de abusos, maus-tratos e negligência até à exposição à violência doméstica, separação parental, alcoolismo ou toxicodependência de algum membro da família, convivência com um familiar doente mental, entre outros.

Alguns estudos apontam para as seguintes conclusões: a susceptibilidade para os problemas de saúde mental (depressão, esquizofrenia, etc) é de oito vezes mais nas pessoas com história de adversidade; a vivência de mais de seis experiências adversas na infância aumenta para 46 a probabilidade de consumir drogas em comparação com as pessoas sem história de adversidade.

O grupo de investigação “Adverse Childhood Experiences” – ACE tem realizado estudos muito importantes e conclusivos acerca dos efeitos da adversidade na saúde física e mental. Com base nas suas investigações, o grupo ACE definiu uma pirâmide que representa os mecanismos pelos quais as experiências adversas da infância influenciam a saúde e o bem-estar ao longo do ciclo de vida.

Figura 1.1. Mecanismos pelos quais as Experiências Adversas da Infância influenciam a saúde e o bem-estar ao longo do ciclo de vida (Adaptado de Felliti, 1998)

 

Os investigadores usaram o conceito de distância científica devido ao facto de não terem conhecimento da forma como se organizam os factores de risco. Segundo estes investigadores, após a vivência de adversidade na infância, ocorreria um enfraquecimento no funcionamento social, emocional e cognitivo nos indivíduos, aumentando a vulnerabilidade dos mesmos à adopção de comportamentos de risco. Por conseguinte, estes sujeitos adoptariam estratégias de coping desadaptadas e ineficazes tais como fumar, beber, consumir substâncias, comer em excesso, etc. como forma de lidarem, a curto prazo, com o seu sofrimento. Consequentemente, estes sujeitos ficam em risco para o aparecimento de doenças físicas e mentais que, em última instância, conduzem à morte do indivíduo (Felitti et al., 1998, citado por Silva, 2006).

É, de igual forma, importante falar dos factores protectores das experiências adversas, nomeadamente porque nem todas as pessoas manifestam perturbação derivada da exposição à adversidade. Desta forma, convém prestar especial atenção aos estilos de coping quando estudamos os efeitos e impacto da adversidade na saúde mental dos sujeitos. De acordo com Wallerstein e Kelley (1980, citado em Maia, no prelo), quando falamos em estilos de coping referimo-nos à autonomia e procura de suporte por parte do sujeito perante uma situação geradora de stress.

Assim sendo, quando o sujeito avalia as suas próprias capacidades para lidar com o stressor, importa que as mesmas sejam avaliadas como suficientes para eliminar ou diminuir as consequências do stress. Folkman e Lazarus (1986) definem o coping como um mecanismo psicológico para lidar como stress externo e interno sendo o seu objectivo último evitar ou diminuir as consequências do stressor. Com efeito, a forma como um sujeito lida com a experiência adversa determina o significado que atribui à mesma e também o impacto que ela tem na vida do sujeito (Lazurus e Folkman, 1984, citado em Aldwin, 1994).


Zulima Maciel

Licenciada e Mestre em Psicologia Clínica

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