Artigos · 8 de Março de 2018

Mindfulness ou atenção plena com crianças

Desenho de um adulto e uma criança de mãos dadas

Mindfulness ou meditação de atenção plena não é uma técnica, mas uma maneira de existir. Uma maneira de ser que em essência busca estar em sintonia com a própria experiência do momento presente, com clareza, aceitação e serenidade. É algo de que necessitamos no mundo conturbado em que vivemos e que merece ser levado às novas gerações (cit. Jon Kabat Zin)

A prática de Mindfulness (ou Atenção Plena) nos ambientes educacionais tem se tornado cada vez mais frequente em todo o mundo. Já são conhecidos alguns benefícios desta prática, nomeadamente no aumento do foco atencional, na regulação emocional e ao nível do relacionamento interpessoal.

Faz sentido então percebermos o que é afinal Mindfulness, como atua e como gera resultados tão positivos nas pessoas.

Mindfulness é uma palavra da língua inglesa que não tem um equivalente exato em português. O adjetivo mindful refere-se a quem está atento ou consciente de alguma coisa, e mindfulness seria assim o estado de estar atento, de estar consciente. Em termos práticos, mindfulness tem sido definida como a consciência do momento presente, quando fixamos nele nossa atenção voluntária, suspendendo qualquer julgamento sobre o que aparece em nosso fluxo de consciência e deixando fluir as experiências ao longo do tempo.

As práticas de Mindfulness são um tipo de meditação. O termo “meditação” designa um grupo de técnicas utilizadas para treinar a atenção, com o intuito de cultivar vários estados mentais positivos. Pesquisas científicas recentes têm demonstrado que o treino regular da prática de Mindfulness produz modificações na estrutura e no funcionamento do cérebro que podem trazer benefícios para os indivíduos e também para o ambiente social.

Alterações cerebrais nos praticantes de meditação

Quando se pratica Mindfulness, o objecto principal da nossa atenção é a respiração. A atenção mantida na respiração traz o fluxo da consciência para o momento presente e dificulta a divagação mental, essa tendência natural que tem a nossa mente de se dispersar.

Técnicas usadas em neurociência, como a ressonância magnética funcional, têm mostrado que várias estruturas cerebrais são modificadas pela prática da meditação. Por exemplo, a Amígdala, uma estrutura cerebral que pertence ao Sistema Límbico e que é responsável pelas emoções como o stress, a ansiedade e o medo, diminui consideravelmente de tamanho, enquanto a Insula, uma estrutura cerebral responsável pela empatia, compaixão e amabilidade, aumenta de tamanho. Em outras palavras, o cérebro que medita se torna diferente na sua maneira de interagir com os estímulos, sejam eles internos ou ambientais.

A prática de Mindfulness envolve treinar a atenção voluntária. Este esforço em focar a atenção promove modificações nos circuitos cerebrais (maior produção de neurotransmissores), o que aumenta a habilidade de permanecer consciente do momento presente e diminui a distração. O efeito benéfico da prática de Mindfulness sobre a atenção pode ser observado já com poucos dias de prática meditativa. Como resultado, ocorre também aperfeiçoamento da memória operacional, o que pode levar, por exemplo, à melhoria do desempenho escolar.

Benefícios da prática de Mindfulness

Para além dos benefícios da meditação ao nível dos processos cognitivos da atenção e da memória, e por conseguinte, ao nível da aprendizagem, destacam-se outros, tais como:

  • Diminuição da impulsividade: a meditação inibe a atividade da amígdala cerebral e aumenta o controlo do córtex pré-frontal, conduzindo a uma regulação consciente das emoções e a respostas mais ajustadas face a estímulos geradores de stress.
  • Aumento da autoestima: as pessoas que meditam, ao observarem o seu fluxo de consciência, notam que os conteúdos que passam pela mente – pensamentos, sentimentos e emoções – são transitórios e estão em permanente mudança e que não há necessidade de se sentir preso a eles. Simplesmente os deixam passar pela sua mente, sem julgamento e com compaixão e gentileza. Isto conduz a uma representação mais positiva do eu e a uma aceitação de si mesmo, aumentando o bem-estar.
  • Aumento da auto-regulação: estudos revelam que esta habilidade tem uma alta correlação com o desempenho escolar, a manutenção da saúde e a boa escolha profissional e uma correlação negativa com problemas com o uso de drogas ou transgressões legais.
  • Aumento das competências sócioemocionais: competências como a autogestão, a autoconsciência, a consciência social, as habilidades relacionais e as tomadas de decisão conscientes são estimuladas pela prática de Mindfulness.

Quanto à prática de atenção plena com as crianças, já existem muitas atividades especiais que levam em conta as diferentes faixas etárias. Assim, são contempladas as diferentes fases do desenvolvimento e não se exige, por exemplo, que as mais jovens tenham de permanecer imóveis ou concentrar-se na respiração por longo tempo, o que, naturalmente, é difícil para elas. O importante é fazer com que elas aprendam a dirigir a sua atenção e a ignorar distrações. Que aprendam a observar o próprio corpo, suas sensações e emoções e sejam capazes de lidar com elas com clareza. Aprendem a viver em grupo, em equilíbrio com outras pessoas e com o ambiente.

Quem pratica Mindfulness adquire a habilidade de viver no “agora”.

Vive em plenitude, em atenção plena e em felicidade (cit. Mikaela Ovén)

Zulima Maciel

Psicóloga, especialista em psicologia clínica e da saúde

Bibliografia

Atenção Plena-Mindfulness: Como encontrar a paz em um mundo frenético, de Ivo Korytowski e J. Mark G. Williams

Mindfulness Atenção Plena, de Mark Williams e Danny Penman

Viver a catástrofe total, de Jon Kabat-Zinn

Educar com Mindfulness, de Mikaela Ovén

Sentados e Atentos: Mindfulness, de Paloma Sainz

Aqui e Agora: Mindfulness, de Vasco Gaspar

Criar a verdadeira paz, de Thich Nhat Hahn

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